quarta-feira, 17 de maio de 2017

BORBORETAS E OUTROS POEMAS DE KIRA KARIAKIN

BORBORETAS

Não entendo o meu destino
vivo suspensa
na trama das borboretas

não desço para os dias futuros
não padeço dor
habito-o sem reservas
com o peito encerrado

não sou a mulher que quis ser
planificaca errada

não tenho arrependimentos
apenas tristezas íntimas
escondidas
que agasalham o quotidiano

não espero a ledice
persigo-a
conquisto-a em cada entardecer
em cada cintilar da noite

não durmo
a vigília é o paroxismo do sonho
da alma atenta
ao voo das borboretas

RITUAL

A água ferve
a chaleira assobia

decido

se for de manhã
o chá será forte

preto

se o crepúsculo
for promissório
a mistura será
afumada e oriental
do contrário
aromatizada à inglesa

as noites e a vigília
são acompanhadas
por perfumes de tangerina
cidreira
sabores de frutos outonais

a xícara acolhe o momento

o paladar   a língua    o olfato
convergem
na verdade do primeiro trago

o meu corpo recebe
comunhão


[TENHO UM OCO NO CORAÇÃO]

Tenho um oco no coração
é seco e escuro

se introduzir um dedo
sinto a aspereza
da areia oculta
das minhas securas
e a negrura densa
que aperta como uma jibóia
insone e insatisfeita

o meu coração
é torto de sentimentos

o vento nele não encontra ninho
nem a luz repouso

eu vivo com um oco cego
no peito

© Texto: Kiria Kariakin
© Tradução: Xavier Frias Conde

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