quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A LATIF PEDRAM E OUTROS POEMAS, DE ISABEL MIGUEL



A LATIF PEDRAM Y A TODAS LAS VOCES SECUESTRADAS

Me repito hasta la sangre que es mi casa,
que las paredes que me envuelven son las mías
y los libros
y hasta yo soy yo en el espejo
aunque no me vea.
Me aprietan
y me asfixio
en esta cárcel tan mía y tan ajena.
Es la puerta frontera
y no hay salvoconducto que la cruce.
Criminal peligroso
pregonan mis guardianes
y, en mi boca, descontrolada,
late la libertad.


A LATIF PEDRAM E A TODAS AS VOZES SEQUESTRADAS

Repito-me até o sangue que é minha casa,
que as paredes que me embrulham são as minhas
e os livros
e até eu sou eu no espelho
embora não me reflita.
Apertam-me
e afogo
nesta cadeia tão minha e tão alheia.
É a porta da fronteira
e não há qualquer salvo-conduto que a atravesse.
Criminoso perigoso,
anunciam os meus guardas
e, na minha boca, descontrolada
late a liberdade


UNDERWOOD WORDS

A Miguel Hernández

En olvido arrumbada,
como el trasto
cuyas teclas huyeron en el tiempo,
aún arrincono en mi metal profundo
el gozoso bullir entre tus manos,
los silencios de perdida mirada,
la latente cadencia de tu rayo incesante.

Si pudiera sentir,
añoraría
aquel despacho libre de paredes
con aromas de viento y aleteo,
y el peritar febril en los poemas
cuando el sentir desborda por palabras.

El óxido corroe mis entrañas
y el tiempo apura el oro de sus huesos
para fundir las letras de tu nombre.


UNDERWOOD WORDS

No esquecimento eu descartada,
como o traste
cujas teclas fugiram pelo tempo,
ainda arrincoo no meu metal profundo
o ledo bulir entre as tuas mãos,
os silêncios de olhar perdido,
a latente cadência do teu raio que não cessa.

Se puder sentir,
teria saudades
daquele escritório isento de paredes,
con aromas de vento e adejo,
e a perícia febril nos poemas
quando o sentimento é desbordado pelas palavras.

O óxido corrói as minhas entranhas
e o tempo consume o ouro dos seus ossos
para fundir as letras do teu nome.


[JUGUEMOS]

Juguemos a escondernos
tras el tronco del árbol de la música,
la foto no permite mancharnos los vestidos.
Juguemos a abrasarnos en tardes de pantano,
cuando el sol se hace fuego entre las rocas.

Juguemos a jugar
antes de que una brecha abra
el tiempo y la distancia
que nos definen diferentes.

"Ella vino más tarde,
pero yo no recuerdo su llegada".

Juguemos, tras las sombras, a encontrarnos.


[JOGUEMOS]

Joguemos a nos esconder
trás o tronco da árvore da música,
a foto não nos deixa sujar os vestidos.
Joguemos a nos abrasar em tardes de pântano,
quando o sol se torna lume entre as rochas.

Joguemos a jogar
antes de uma brecha abrir
o tempo e a distância
que nos definem diferentes.

"Ela veio mais tarde,
mas já não me lembro da sua chegada".

Joguemos, trás as sombras, a encontrar-nos

Texto: Isabel Miguel
Tradução: Xavier Frias Conde

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DESARRAIGAMENTO E OUTROS POEMAS, DE SILVIA CUEVAS



DESARRAIGO

Un enorme peso que me fatiga
Una triste valla que me aísla
Un desierto que me asfixia
Un mar que me castiga
Sonrisas de papel que ya no devuelvo
Recuerdos borrosos que me anulan
Pertenencias que ya me son ajenas
Amistades que ya desconozco
Sueños insatisfechos
Planes truncados en el destierro
Fotografías que me acosan
Cartas polvorientas que me hunden
Voces distantes que me susurran un pasado
que ahora siento tan lejos
En círculos deambulo por avenidas
sin dar con el sosiego
La noche más cruel aún
no me permite descansar mis huesos
Aferrada a mi almohada
intentando sucumbir al sueño
en búsqueda de esa calma
que tanto añoro
que tanto necesito
para volver a nacer
con pleno derecho a vivir
en este país nuevo


DESARRAIGAMENTO

Um imenso peso que me fadiga
Um triste valado que me isola
Um deserto que me asfixia
Um mar que me castiga
Sorrisos de papel que já nem devolvo
Recordações imprecisas que me anulam
Pertenças que já me são alheias
Amizades que já desconheço
Sonhos não compridos
Planos truncados no desterro
Fotografias que me assediam
Cartas de poeira que me soterram
Vozes distantes que me sussurram um passado
que agora sinto tão longe
Em círculos vago por avenidas
sem dar com o sossego
A noite ainda mais cruel
não me permite descansar os meus ossos
Aferrada à minha almofada
tento render-me ao sonho
na procura dessa calma
que tanto anseio
que tanto preciso
para renascer
com todo o direito a viver
neste país novo.



[SOLDADITOS DE PLOMO]

Soldaditos de plomo
marchan al compás de mis años
volviéndome vieja
Goterita de hielo que no
permite pegar pestaña
Sablecito afilado
en partido de esgrima
sangrando
          segundo
                   a segundo
Martilleo de pensamientos
que se clavan en el cerebro
Bomba de tiempo
Terrorista de mis sueños
Pulso metálico
Metrónomo histérico


[SOLDADINHOS DE CHUMBO]

Soldadinhos de chumbo
marcham ao ritmo dos meus anos
tornando-me velha
Pingueirinha de gelo que não permite
colar pestana
Sabrezinho afiado
numa partida de esgrima
a sangrar
            segundo
                       a segundo
Batucada de pensamentos
que se espetam no cérebro
Bomba do tempo
Terrorista dos meus sonhos
Pulso metálico
Metrónomo histérico



ORACIÓN

Que las sombras de la noche no me desvelen
Que el silencio no me grite al oído
Que el reloj no explote en mi cerebro
con su maldito martilleo eterno
Que la araña no teja su tela en mis pensamientos
Que el búho no se mofe de mi sonrisa
Que el tiempo no me robe tu recuerdo
Que mi sueño no permita que te seduzcan otros versos
Que la distancia no nos tienda trampas
y nos entierre en el olvido del silencio
Que los miedos no nos asalten
con sus máscaras diabólicas
y el veneno de los celos
Que sepamos mantener presente
que es la misma luna pálida la que se esconde
detrás del sol de tu cielo


PRECE

Que as sombras da noite não me despertem
Que o silêncio não me grite na orelha
Que o relógio não estoure no meu cérebro
com a sua maldita eterna batucada
Que a aranha não teça a sua teia nos meus pensamentos
Que o corujão não brinque com o meu sorriso
Que o tempo não me roube a tua recordação
Quero que o meu sonho não permita que te seduzam versos
Que a distância não nos tenda emboscadas
e nos soterre no esquecimento do silêncio
Que os medos não nos assaltem
com as suas máscaras diabólicas
e o veneno dos seus ciúmes
Que saibamos ser cientes
que é a mesma lua pálida a que se oculta
atrás do sol do teu céu


Texto: Silvia Cuevas
Tradução: Xavier Frias Conde

ANGEL PARA UM FINAL, DE MONTSERRAT VILLAR




ÁNGEL PARA UN FINAL

Sucede
que los ángeles se han descolgado con la tormenta
y lloran mientras sus alas
se mojan en los charcos.

Sucede
que los niños vigilan a su madres en los parques
y las amenazan con abandonarlas.

Sucede
que en las caricias las manos ya no tiemblan,
que un cuerpo y otro cuerpo no se tocan
si no es para cubrir gastos.

Sucede
que la niebla se pega a las paredes
y grafitea el silencio de la noche.

Sucede
que las sombras caminan sin los cuerpos
y hace frío, mucho frío.

Sucede
que el mundo es una espiral que expira
con cada derrota de un justo.

ANJO PARA UM FINAL

Acontece que os anjos despenduraram com a trovoada
e choram enquanto as suas asas
ficam molhadas nos charcos.

Acontece
que os miúdos vigiam as suas mães nos parques
e ameaçam com abandoná-las.

Acontece
que nas carícias já as mãos não tremem,
que um corpo e o outro já nem se tocam
exceto para cobrir as despesas.

Acontece
que o nevoeiro fica às paredes apegado
e grafiteia o silêncio da noite.

Acontece
que as sombras caminham sem os corpos
e vai frio, muito frio.

Acontece
que o mundo é um espiral que expira
por cada desfeita de um justo.


CADÁVER

Soy un cadáver en proceso de descomposición,
lo sé porque las moscas
revolotean a mi alrededor con ojos de avaras.

Lo sé porque el frío no abandona mis dedos.
Lo sé porque no me ves
y no me tocas.

Lo sé porque aquellos borran mi recuerdo
y estos están tranquilos
en su recién estrenada soledad.

CADÁVER

Sou um cadáver em processo de decomposição
sei-o porque as moscas
volateiam ao meu redor com olhos de avaras.

Sei-o porque o frio não abandona os meus dedos.
Sei-o porque não me vês
e não me tocas.

Sei-o porque aqueles apagam a minha recordações
e estes ficam tranquilos
na sua recém estreada solidão

Texto: Montserrat Villar
Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

TRÊS POEMAS DE GISELA GRACIAS RAMOS ROSA



Não se equivoquem aqueles
que pensam que a sede
é apenas ambição.
A sede é peregrina do corpo
da sua transformação.


No se equivoquen
los que creen que la sed
no es sino ambición.
La sed es la peregrina del cuerpo
de su transformación.
(inédito)



*   *   *


Passemos erguidos com a vénia do coração
perante quem a cicuta produz efeitos
que desenham o rosto de quem
a verteu e ofereceu com a língua informe.

E àqueles cujo olhar não mais diz que
a ávida esperança da escuta a esses
depositemos a oração do poema
com as palavras mais simples

(inédito)

Pasemos orgullosos con permiso del corazón
ante quienes la cicuta afecta
los que dibujan el rostro de quien
la echó y ofreció con lengua deforme.

Y a aquellos cuya mirada no invoca más que
la ávida esperanza de la escucha en esos
depositemos la oración del poema
con las más simples palabras


*   *   *




Entre mim e a linguagem, a pele e o mundo.

in as palavras mais simples
Entre el lenguaje y yo, la piel y el mundo

Texto: Gisela Gracias Ramos Rosa
Tradução: Xavier Frias Conde

EM CONTRALUZ, DE GRACIELA ZÁRATE



ELIPSE

Ele decidiu agachar-se
não içar mais as montanhas nem voar
a flutuar por cima de cabeças sem ser visto.
Salvar-se em paralelo, embora magoasse,
não se emprestar, não arder.

Fumigar os olhos quando choram
desprezar os abraços que riscam o horizonte,
talvez na ponta das dedas.
Prescindir da vida
como o sol no inverno.


O AVISO

Hoje vieram os corvos
grampados em pastas do julgado,
petaram na porta  da qual tenho escorregado 
por não ver como acabam com o que me fica

Um bisturi de voz
 e no rosto uma hiena 
encheram de expedientes
com números e barras
que, segundo eles, sou eu.

De repente minha cabeça foi um carrossel,
a raiva virou espuma entre meus dentes
e o mar não foi azul. Gemi ultrajada.
Um passo mais do que sozinha, não houve abraço,
não escutei uma palavra
e a música afundia.
O que é, se algo tiveste, aquilo que te' fica?

Aferrada ao meu corpo,
por diante do sol e sem o que vesto,
em contraluz do embargo, própria e blindada, vou.


CHEIRO

Quando já até a pena de ti se afastar,
quando todos te abandonem e o amor seja tristeza,
olha para o mar e a sua carícia,
acredita existires e começa de novo.
Começa tantas vezes quanto puderes parir-te,
não cesses, nem deixes os medos vencerem-te,
nem fiques onde não estás.
Apenas vales quanto sentes,
se morreres, nada cá mudará.
Mas enquanto te olhares,
enquanto não abandonares,
enquanto tu de ti gostes
valerá a pena, pelo menos, ser cheiro.

Texto: Graciela Zárate
Tradução: Xavier Frias Conde

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

FRAGMENTOS DE DIÁRIO DE PARIS, DE TEREZA RIEDLBAUCHOVÁ



-1-

V mých útrobách létá hejno netopýrů
Kdysi v Saint-Émilion jsem vešla do velkého domu
ve dvanácti místnostech naráželi o zdi netopýři
mí hostitelé mi řekli že jsem čarodějka
a místo aby mě upálili uložili mě do nejkrásnější místnosti

Pelas minhas entranhas corre uma  bandada de morcegos.
Uma vez em Saint-Émilion entrei num casarão
onde em doze alcovas batiam os morcegos contra a parede.
Os meus anfitriões chamaram-me bruxa,
mas em vez de me queimarem, levaram-me para o mais formoso quarto.


-2-

Už tu bydlím jenom s holuby
v domě který všichni opustili
a který opouštím i já
lze se teď procházet v útrobách bytů
a na kusech nábytku pozorovat otisky bývalých sousedů
ráno vycházím na pavlač mezi štěrk a holubince
takový je můj život
zastřená okna k minulosti
a u promoklých zdí nánosy snů

Moro aqui apenas com pombas
numa casa que todos abandonaram,
eu própria também.
Aqui se pode passear pelas entranhas da morada
e entre os restos da mobília veem-se as pegadas dos antigos vizinhos.
Amanheço no pórtico entre grava e cagalhões de pomba.
Assim é minha vida,
uma confusa janela ao passado
e junto da parede ensopada, o sedimento dos sonhos.


-3-

Vplouvám mezi stehna za zvuku chřestýšů
po hmatu má vnitřnosti jako lávu a med
nacházím v ní svou rozlehlou mexickou zemi
i hroty aztéckých pyramid leží přede mnou otevřená

Mluvil na ni francouzsky, španělsky a ještě nějakým nesrozumitelným  domorodým jazykem
oči měl jako dvě divoké včely
a černé vlasy jako provazy a dlouhé šípy
ležela před ním otevřená


Flutuo entre as tuas coxas trás o som da cobra de cascavel
através do tacto do meu interior como lava e mel.
Ali descubro a minha extensa terra mexicana
enquanto perante mim, aberta, se espalham as pontas das pirâmides aztecas.

Falou-lhe em francês, espanhol e até nalguma língua autóctone incompreensível,
seus olhos eram como duas abelhas selvagens
e o seu cabelo preto como cordas e longas flechas,
ela deitou-se ante ele.


-4-

Bílý kozoroh padá z modré skály
na nebi stojí měsíční krev

Žena kouří na prosklené verandě
na protějších balkónech hračky objímá tma
nad střechou pomalu plachtí bílí ptáci

Um capricórnio branco cai da rocha azul
e no céu fica sangue lunar.

Uma mulher fuma na galeria envidraçada,
nas varandas de em frente, a escuridão abraça brinquedos,
pelo teto voam lentos os pássaros brancos.

Texto: Tereza Riedlbauchová
Tradução: Xavier Frias Conde
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